Ramal das Águas Santas

  "Um sonho que se foi". Essa é a definição de muitos são-joanenses e tiradentinos que tiveram a felicidade e o prazer de viajar em um dos trens mais amados de toda a bitolinha: o "Trem das Águas", um antigo expresso da E.F Oeste de Minas que fez bastante sucesso entre os moradores da São João del-Rei e Tiradentes, que faziam uso desse agradável meio de transporte para obterem acesso ao balneário de águas termais que ficava no fim da linha, popularmente conhecido como Águas Santas, daí o seu nome.
  "Expresso Balneário", "Trem das Termas", ou qualquer outro nome que seja conhecido. O que acontece é que esse trem era o "xodó" dos moradores da região da Serra de São José. Por causa dele, o balneário das Águas Santas se tornou uma das maiores atrações turísticas do município. Pessoas de todos os cantos de Minas Gerais vinham conhecer as propriedades das águas radioativas da fonte, e iam e voltavam para a cidade de trem. Segundo minha avó Ercília Silva, muitas pessoas da cidade faziam questão de passar o domingo todo no balneário, seja fazendo piquenique, indo nadar por mera diversão, ou tentando se curar de alguma doença com a água; e a essa altura, muitos já estavam na estação principal ás sete da manhã. "Quem morava no bairro de Matozinhos, depois de uma rápida passagem pela antiga Capela do Bom Jesus de Matosinhos para rezar, seguia rumo á estação de Chagas Doria, que se situa a menos de duzentos metros da estação. Nisso, chegava o trem, já carregado de pessoas ansiosas para chegar ao parque. As bagagens, lancheiras e guarda-sóis eram postos em um dos dois carros-bagageiros fornecidos pela companhia para que os usuários do trem pusessem suas malas sem precisar levá-las dentro dos vagões convencionais."
  "O apito do trem deixa todos em um estado de euforia; o trem está para partir rumo ao destino final. A plataforma da estação se esvazia em minutos, com as pessoas entrando no comboio que já se põe em movimento. Outros que ficavam na praça e no antigo "Pavilhão", á espera do início da missa das nove na capela, acenam para os passageiros que se encontram nos carros puxados vagarosamente pela locomotiva, que apita para alertar os veículos das passagens de nível logo á frente. E parte."
  "A composição segue sua marcha vertiginosa, passando ao lado da Fábrica de Tecidos Matosinhos, que se encontra a toda ativa. Aos poucos, as casas e as chácaras vão ficando cada vez mais esparsas e raras, e o trem começa a adentrar um pasto com algumas vacas que pastam preguiçosamente á beira da via férrea. O céu azul da manhã e a luz do sol fazem os trilhos brilharem como se fossem de prata. Nisso, a linha alheia que seguia paralela á que o trem se encontrava, faz uma curva e segue em direção ás montanhas de Tiradentes. Porém, continuamos em linha reta. Á distância, podemos ver um auto de linha parado, e funcionários da E.F Oeste de Minas fazendo reparos na malha bem rapidamente, pois um trem sairá rumo á Antonio Carlos ao meio-dia, e ele não pode sofrer atraso. Nisso, o trem segue em linha reta e nos aparece as caudalosas águas do Rio das Mortes, com pessoas na beira arenosa pescando, e crianças brincando despreocupadas na margem do rio. Sim, estamos sobre o pontilhão. Outra atração para os moradores do Matosinhos, que pescavam, passeavam de barco e até nadavam dentro do rio, conforme a ocasião. A extensa ponte metálica fica para trás e o trem atravessa mais um pasto de criação de gado caseiro. As árvores, a grama, as vaquinhas pastando e o belo panorama do sol subindo no céu com o Rio das Mortes bem ao lado fazem a viagem ficar ainda mais prazerosa e aprazível."
   "Dentro do vagão, as pessoas conversavam, cantavam velhas músicas conhecidas e liam o jornal, enquanto vendedores ambulantes comerciavam doces e quitutes dentro dos trens, que eram aceitos com entusiasmo pelos passageiros que ansiavam por um aperitivo, enquanto o trem continuava a ganhar os trilhos. Um tempo depois, um tranco e a sensação de que o trem desacelerou. Não, estamos na metade do caminho. Uma olhada pela janela do vagão, e percebemos que a viagem não vai demorar muito, pois estamos na última parada do ramal: Cesar de Pina. Moradores da Colônia do Marçal, Giarola, e das colonias italianas próximas tomam assento no trem, que sem mais delongas parte rumo ao seu destino final.
  "Nisso, passados meia hora, aproximadamente, o trem começa a se aproximar do seu destino final. O barulho de água e os gritos de crianças brincando chama a atenção dos passageiros, que se se dão conta de que chegaram ao balneário."
  "Quando se desce á plataforma da pequena estação, a visão que se tem é a de um paraíso. Os lagos e as piscinas, as fontes, pessoas se divertindo e interagindo umas com as outras, enquanto o trem fica estacionado na linha próxima á graciosa estação, apinhada de cidadãos  interessados em conhecer as maravilhas da saúde realizadas pelas fontes termais do Balneário. Os maquinistas e condutores conversam animadamente sentados na plataforma, enquanto bebem café com pão de queijo (comida "padrão" nessa parte de Minas Gerais.) Riem e tagarelam de maneira descontraída, e se o chefe da companhia lhes permitiu, um banho de piscina e uma rápida visita ao pequeno poliesportivo do parque."
  "O dia transcorre. Boa parte das pessoas sai da água e começa a abrir as lancheiras e marmitas que trouxeram dentro do trem para garantir alimentação para o dia todo. Os que não se precaveram, podem procurar o quiosque do Balneário, onde há um restaurante que vende a mais típica comida mineira. Arroz tropeiro, feijoada, queijo Minas (era óbvio...) bifes, farofas e saladas de todos os tipos e feitios, e de sobremesa, doce de leite acompanhado de um belo pedaço de goiabada ou rapadura, e um pé-de-moleque ou doce de amendoim para servir de aperitivo. Finda a farta refeição, os turistas e frequentadores do Parque se reúnem em grupinhos, onde conversam, jogam cartas, damas e outros passatempos, enquanto outros se ajeitam nas espreguiçadeiras para tirar uma pequena sesta. Alguns relaxam dentro das banheiras naturais formadas, visando usufruir da água especial. Porém, para os maquinistas do trem que trouxe essa gente toda, porém, a folga já acabou, porque eles necessitam desde já manobrar a locomotiva dentro do pequeno triangulo de reversão da malha, para colocá-la em sentido de marcha de volta a São João del-Rei. Vendo o movimento do "trem de ferro", os turistas e moradores já se preparam para partir de volta para casa, ajuntando suas bagagens e colocando-as de volta no trem."
   "Aqueles que já fizeram isso há mais tempo, posam para fotografias do fotógrafo do balneário, que registra uma família reunida feliz ao lado da estação. Os maquinistas, em um período de descontração, pedem uma foto, posando em frente á locomotiva na qual trabalharam talvez por anos... Eles fazem a pose para o fotógrafo, e FLASH!"

Maquinistas posam ao lado da RMV 12, plena atividade no ramal das Águas Santas.
  "Cerca de quarenta e cinco minutos mais tarde, o trem está pronto para partir. Todos tomam lugar nos vagões, que se lotam novamente. Apesar de se encontrarem em espaço relativamente confortável, alguns são forçados a viajar em pé devido á grande demanda no trem das Águas Santas. Porém, todos se sentem relaxados e felizes.Relaxados porque sentiram o benefício das fontes termais do Parque. Felizes porque podem desfrutar de um meio de transporte confortável, prático e acessível a todos: uma paixão mineira! Nisso, um tranco nos vagões deixa claro a todos que o trem está partindo e todos vão voltar para casa depois de mais um dia feliz de um são-joanense, com o mundo visto da janela de um vagão. Animadas com o dia na piscina, as crianças dizem eufóricas: "Queremos que dure para sempre, aqui é o céu!" E durou para sempre... "


."..Pelos próximos 15 anos. Ao findar de todo esse tempo, transcorria o ano de 1966. O são-joanense morador de uma das poucas casas existentes que virão a compor a Vila de Santo Antonio, lê tranquilamente o jornal na varanda de sua casa. Não há nada que possa impedir esse momento,quando ecoa um grito distante."

-Dinamite!

BANG! CABOOW! CROU! POW!

"Um barulho de explosão seguido do ruído abafado de alguma coisa caindo na água chama a atenção do homem, que naturalmente fica muito curioso. Ao sair no quintal, vê uma pequena nuvem de fumaça branca se erguer das árvores que ficavam próximas á linha do trem das Águas, na altura do pontilhão."Uai", O que será que aconteceu? Nisso, chega a mulher do são-joanense, que acaba de voltar da missa e da feira na Praça do Matosinhos:"
- O que aconteceu? - pergunta o homem.
A mulher dá um suspiro e diz:
- É a ponte do trem do balneário; foi dinamitada agora há pouco. Parece que a companhia não viu utilidade nele por ser muito pequeno e decidiu arrancar a linha; hoje mesmo, quando estava na missa vi dois trens seguindo para lá com funcionários e ferramentas. A gente num vai mais andar de trem pro parque..."
  "Tempos depois, o homem resolve descer para ver como estão as obras. A movimentação é grande, e surpreendentemente não é de funcionários da recém-chegada Viação Férrea do Centro-Oeste. Pessoas de toda a cidade vieram dar o último adeus aos trilhos sobre os quais correram a felicidade de seus fins-de-semana. A multidão transtornada protestou com argumentos e gritos de ira e inconformismo no local das obras, em frente á estação e diante da Prefeitura, mas debalde. O trem não voltou para Águas Santas."

                                                                                                     Por: João Marcos S.Pinheiro

Os relatos são fictícios, mas são um retrato escrito da realidade que reinou na cidade de São João del-Rei por 55 anos. Andar de trem até o balneário em Giarola, se divertir por lá o dia todo e voltar á tardinha, relaxado e satisfeito, contemplando o por-do sol refletido nas águas do Rio das Mortes visto da janela do trem era mais do que suficiente para fazer qualquer pessoa se sentir no melhor lugar do mundo. Até hoje, passados 46 anos da erradicação da linha, ainda podemos encontrar pessoas que não tiram da memória os saudosos momentos alegres que passaram nas águas do parque. Muitos falam que "as três melhores coisas de se ir ao Balneário eram: as piscinas, a comida e o clan-clan das rodas do trem nos trilhos, após voltar do parque, e relaxar naquela poltrona do vagão, não importando se ela fosse de madeira ou couro."
  Muitos dos que cederam memórias, imagens e depoimentos não se conhecem, sequer jamais viram um ao outro. Mas todos eles tem um mesmo desejo em comum:

  "Eu gostaria que o trem voltasse. É um ideal pelo qual vale a pena lutar. Seria um resgate de nossa história, que tem de ser apresentada á juventude que não pegou essa era de ouro.  Queremos o retorno dos trilhos."