domingo, 16 de setembro de 2012

Acidente na linha - 22 de novembro de 1971

   Acidentes na estrada de ferro eram acontecimentos raros, porém perigosos. Confira abaixo o relato do jornal são-joanense Ponte da Cadeia, que relata um desastre ferroviário que ocorreu entre as locomotivas Nº58 e 39, da VFCO, em 1971.

"O desastre ferroviário do dia 22 não ocuparia o espírito do povo - numa época em que os acidentes já perderam direito a esse nome, pois fazem parte da rotina, se não fosse pelas circunstancias esquisitas e talvez acidentais de ser um desastre fora de série.
 Os entendidos e os outros comentam que tal acidente não deveria ter acontecido, não tinha direito de acontecer, porque as circunstancias não admitem com facilidade o fato, as probabilidades de ocorrência são remotas e não se justifica o que houve [...]
  Mas do jeito que aconteceu, só não é ridículo porque um homem morreu e outro está no hospital . Se não fosse a tristeza da morte de um ferroviário de 39 anos, seria um desastre ridículo, numa linha de pouco movimento, na bitola de 0,76 centímetros, onde os encarregados da segurança tem que dedicar apenas alguns minutos á sua tarefa principal, a segurança, e falharam nesses minutos.
  No dia 22 de novembro de 1971, ás oito horas da manhã, a locomotiva Nº39, do trem MD-3, colidiu em cheio com a locomotiva Nº58, do trem de socorro, que vinha em sentido contrário, saindo feridos dez ferroviários, sendo dois do trem de passageiros e oito do trem socorro.
  O auxiliar de maquinista, o sr. José Manoel Marques, sofreu amputação traumática de um pé e foi levado para a Santa Casa, onde teve amputação cirúrgica da perna. Foi atendido pelo Dr. Cláudio I Costa. Tinha também outros ferimentos graves, por esmagamento, e morreu no dia 24. O maquinista auxiliar, o sr. Mário Lara, está vivo porém com outros ferimentos e fratura do fêmur, no Hospital das Merces. 
 Os oito operários do trem socorro, também feridos, não apresentaram maiores problemas e foram medicados no local pelo Dr. Antonio da Silva Rios.
 O maquinista José Marcelino Neto, do trem socorro, e o auxiliar Joaquim Simeão, pularam fora da locomotiva quando viram que iam bater. E não sofreram ferimentos. O local do acidente é o km 160, entre as estações de Congo Fino e Nazareno, a exatamente oito minutos de viagem de Congo Fino.
 Os passageiros do trem que saíra de S. João del-Rei ás seis horas, nada sofreram, por sorte, pois havia diversos vagões antigos de madeira que iam vazios para receber minério, colocados entre a locomotiva e os carros de passageiros. Com o choque, serviram de amortecedor, desmilinguiram-se e se incendiaram. O fogo não passou aos carros de passageiros.
 Esse trem é dos mais comuns. É tradicional e vai normalmente para Aureliano Mourão. Lá os passageiros tomam outros destinos, com baldeação para Divinópolis ou outros lugares. É o famoso e velhíssimo trem do sertão, antiga tradição são-joanense dos tempos em que o trem de ferro tinha grande prestígio entre o povo, quando a cidade era pioneira em estradas de ferro, e a Estrada de Ferro Oeste de Minas era nesta região muito adiantada.
 Pois este trem seguro e tranquilo tinha o destino marcado para o encontro com o trem socorro que havia quebrado o galho num tombamento no km 163.
 Há duas versões para explicar o acidente:
Primeiro, uma besteira do maquinista do trem socorro, que saberia da chegada do trem de passageiros a Nazareno (todo mundo sabia, todo mundo sabe, pois é um trem conhecidíssimo ,um trem de horário tradicional.) Então esse maquinista teria partido assim mesmo, no sentido de Congo Fino. E bateu oito minutos antes de chegar á estação de Congo Fino, antiga João Pinheiro.
 A outra versão dos meios ferroviários é que o telegrafista de Nazareno não teria comunicado a saída  do trem socorro para Congo Fino. Então a estação de Congo Fino soltou o trem que ia de São João del-Rei. Oito minutos depois, a batida fora de série.
 Além dessas especulações, há quem diga que o maquinista do trem de passageiros estaria com a razão. Há outras hipóteses, como a omissão dos telegrafistas das duas estações, tanto de Congo Fino quanto Nazareno, ou a da precipitação e imprudência do maquinista do trem socorro.
 Consta que a Viação Férrea do Centro-Oeste provavelmente já sabe o que aconteceu, mas ainda não disse nada. Há também informações de que esse é o 4º ou 5º acidente com o mesmo maquinista do trem socorro. [...] O falecimento do maquinista foi comunicado ao delegado pelo sr. Roque de Conceição Lima, que responde pela chefia do 9º Depósito da VFCO. [...]
 Na verdade, a direção do trem é dada pelos trilhos. A velocidade é mínima. As máquinas são do século 19. Os maquinistas conhecem a linha como a palma das próprias mãos. Não há movimentações do terreno, nem há notáveis ocorrências meteorológicas. O pessoal  das estações sabe de cor e salteado quais são os horários dos trens. E só mexe com isso, pelo menos oficialmente. [...]
É um desastre fora de série. Um desastre que matou um homem e poderia ter matado dezenas. Um desastre impossível. 
 Esse desastre é uma vergonha."




                                                                                  - Jornal PONTE DA CADEIA, de 22 de novembro de 1971.Gentilmente cedido por Benito Mussolini Grassi.


Aspecto das locomotivas VFCO 58 e VFCO 39, que se envolveram no acidente no início da década de 1970. Por Charles Small.

  




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