sábado, 28 de abril de 2012

Numeração de locomotivas na RMV/VFCO (pano rápido)

Para ajudar a organizar e classificar suas locomotivas, a RMV, bem como qualquer outra estrada de ferro no mundo, costumava numerar suas locomotivas com um prefixo de ordem para a frota. Acontece, que ao contrário do que os leigos pensam, esses números não são escolhidos ao acaso. Há uma razão para a locomotiva apresentar essa nomenclatura, que varia desde a ordem de compra ao tipo de rodagem de cada máquina. Veja aqui a segunda classificação numérica das locomotivas da Rede Mineira de Viação, que se tornou vigente posteriormente na VFCO e na "bitolinha" da RFFSA:

Números de 2 dígitos - 1 a 71


As locomotivas que se encaixavam nessa categoria eram as máquinas de bitola de 0,76m da companhia, herdadas da épica Estrada de Ferro Oeste de Minas, que veio a ser encampada pela RMV. Na "bitolinha", as máquinas eram separadas em três grupos distintos, que eram classificados de acordo com a ordem de compra: Primeiro as locomotivas de maioria American (4-4-0), depois as locomotivas Consolidation (2-8-0, grande parte adquirida no round que veio entre 1889 e 1894) seguidas por algumas Ten-Wheelers (4-6-0), que vieram alguns anos mais tarde. Com o passar do tempo, quando parte da frota já estava desfalcada com os sucateamentos, é que o tipo de rodagem passou a ser considerado como classificador do número da locomotiva.

A 2-8-0 RFFSA SR-2 Nº58 já trabalhando na manobra no Pátio de São João del-Rey, em 1979. Essa locomotiva foi adquirida em novembro de 1893 e começou na EFOM com o Nº29, seguido do RMV 208 (imposto na RMV/Oeste) e depois o definitivo RMV 58 (imposto pela RMV oficial.) As máquinas 2-8-0 eram classificadas dos números 50 a 71, respectivamente. Foto de Herbert Graf.
Locomotiva Nº1 (EFOM 1, RMV 1) defronte ao prédio da administração da então V.F do Centro-Oeste, na década de 1970. Foi comprada em abril de 1880 e recebeu o número 1 por ser a primeira locomotiva da companhia. Foto da coleção de Thiago Lopes de Resende.
Locomotivas de bitola de 1,00m - números de 3 dígitos


Os números de 3 dígitos já chegaram a ser de uso da bitolinha, mas não foram de uso muito longevo na ferrovia. Por exemplo, a locomotiva Nº41 já possuiu o Nº111, a falecida RMV 67 já foi 220, e assim com quase todas as máquinas da RMV (exceção das 4-4-0 "Montezuma".) Depois da chegada da companhia em 1931, todas as máquinas de bitola métrica da antiga EFOM foram numeradas com números de 3 dígitos, sem exceção. Veja:

Locomotivas da série "100"


Esse grupo de locomotivas de bitola de 1,00m era o de locomotivas mais velozes e menos potentes da companhia. Abrangiam as numerosas 4-4-0, raras 2-6-0 e todas as locomotivas-tanque (não necessitavam de tender). Essas máquinas foram classificadas com números mais baixos de acordo com seu potencial de tração, que era aquém do das demais locomotivas de maior rodagem da frota. Quando as VFCO assumiu o controle de todo o material da RMV, haviam pouquíssimas dessas máquinas ainda sobreviventes. Foram utilizadas como manobreiras por um tempo, até que a empresa desistiu de investir nelas e mandou-as para o corte. Das quase 60 locomotivas desse tipo em operação na velha RMV, apenas a RMV 157 sobreviveu para atestar a história.

Locomotiva-tanque RMV 117 manobrando boxes para longe das margens do Rio Grande, que inundou o pátio de Ribeirão Vermelho em 1946. Acervo de Hugo Caramuru.

American RMV 157 em Varginha, a única do tipo que sobreviveu á era de transporte e manobra. Foto cedida pelo site Revista Ferroviária.com.
 Locomotivas da série "200"


O grupo de locomotivas RMV - métrica com maior número de locomotivas remanescentes é o de locomotivas renumeradas de 200 a 250: 14 máquinas sobreviventes. Parte delas foi colocada em condição operacional pela ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária), enquanto outras permaneceram estáticas como monumento, todas restauradas. As máquinas 4-6-0 vinham depois das 4-4-0, e por isso receberam os números 200 a 250, numeração que perdurou na VFCO e posteriormente na SR-2.

VFCO 200 em seus últimos dias na manobra, década de 1970. Note o tender ainda com o 200 no estilo de pintura da RMV. A primeira locomotiva 4-6-0 da companhia foi baixada meses depois. Foto da coleção de Hugo Caramuru.

Ferroviários avaliam estado da RMV 242 depois de se acidentar durante uma viagem. Acidentes com ten-wheelers eram raríssimos, devido á grande estabilidade que essas máquinas tinham na via férrea. Local e data desconhecidos. Foto da coleção de Hugo Caramuru.

Ferroviários diante da VFCO 246, na década de 1970. Um grupo tão versátil de locomotivas, que foram aproveitadas como manobreiras antes da aposentadoria definitiva em 1975. Acervo de Hugo Caramuru.

Locomotivas da série "300"


Essa categoria abrange as locomotivas 4-6-2, as famosas "Pacific" da RMV. Vinham logo antes das 4-6-0 em desempenho. Na RMV, foram numeradas de 300 a 340. Sete delas foram conservadas.

A primeira Pacific da companhia, a RMV 300, provavelmente na estação de Lavras, em data desconhecida. Ostentando o clássico padrão "estrela" que se tornou bastante famoso com as máquinas da  "bitolinha". Acervo de Hugo Caramuru.

Time de funcionários posam diante da RMV 314, no girador da rotunda de Ribeirão Vermelho, na década de 1950. As locomotivas 4-6-2 se diferenciavam das ten-wheelers apenas pela presença de rodas de sustentação sob a cabine, o que proporcionava caldeiras maiores. Acervo de Hugo Caramuru.

Maquinista em momento de descanso diante de sua RMV 324, no pátio de Ribeirão Vermelho. Note os enfeites de "cata-vento", hit entre os maquinistas da EFOM. Foto da coleção de Hugo Caramuru.
Locomotivas da série "400"


As máquinas que faziam parte do grupo numerado de 400 a 440 eram as Consolidation, ou 2-8-0, como preferem alguns. Diferentemente do que aconteceu na "bitolinha", restaram pouquíssimas máquinas do tipo para a atualidade.

RMV 414, em rara fotografia. Note a cabine totalmente construída em aço. Foto da coleção de Hugo Caramuru.

Capa da revista Cargas, que mostra a RMV 431 aguardando restauro no pátio da ABPF - Campinas-Jaguariúna. Acervo de Thiago Lopes de Resende.

VFCO 435 manobrando em Passa Quatro-MG. Uma locomotiva com a potencia de duas G-12,ainda se encontrava em boas condições operacionais quando foi aposentada e baixada. Foto do site Viagem nos Trilhos.

Locomotivas da série "500"


Na RMV foram dois, e não apenas um tipo de locomotiva que ostentaram os números dessa categoria. Primeiramente, a maioria das máquinas eram as Mikado (2-8-2), que foram numeradas de 500 a 530. As máquinas desse tipo tinham um par de rodas de sustentação abaixo da cabine, o que permitia caldeiras maiores.  Dessas 30 máquinas, apenas três delas, a RMV 505, de origem germânica, foi preservada e posta em condição operacional. As outras são as RMV 520 e 522, que ainda aguardam restauro nas oficinas da ABPF - Cruzeiro e Regional Sul de Minas, respectivamente.

RMV 505 em plena atividade na V.F Campinas-Jaguariúna, resultado de um belo trabalho realizado pela ABPF - Campinas. Ela é clássica de muitas filmagens de TV. Foto disponibilizada pelo portal Guia do Viajante.
RMV 517 "Mikado" tracionando trem misto na saída da estação ferroviária de Pedrão, década de 1940. Note a aparência "americanizada", influencia das locomotivas gigantes que estavam para ser encomendadas pela RMV. Foto da coleção de Hugo Caramuru. 
Quem pesquisa frequentemente sobre a RMV solta um triste suspiro quando vê essa imagem da estação de Santo Antonio do Monte, em que a VFCO 519 está em seus últimos momentos de operação. Dias depois, os pedaços do equipamento estavam jogados em um pátio, para serem transformados em parafuso em alguma fundição. Foto da coleção do Sr.José Maria de Melo.
O outro tipo de locomotivas que também compartilharam os números da série eram as 2-8-4 "Berkshire", que foram um reforço do Departamento Nacional de Estradas de Ferro para a RMV, para modernizar sua frota de máquinas. Eram de origem francesa (GELSA) e receberam os números 550 a 555. Excelentes locomotivas, mas foram destinadas a trabalhar em linhas para trens de pequeno e médio porte, usavam combustível pobre e tinham uma manutenção demasiadamente complexa para as oficinas da companhia. Ficaram em serviço por menos de 20 anos, sendo retiradas de operação e baixadas na década de 1960.

"Foto de foto" da RMV 550, no grande pátio de Ribeirão Vermelho, local onde essas máquinas atuavam. As 2-8-4 eram admiradas pela imponência, mas observadas com um certo receio pelos ferroviários, devido ao histórico de acidentes. Acervo Biblioteca E.E Dr.Garcia de Lima.

Em um belo dia de março de 1956, a RMV 551 também em Ribeirão Vermelho, estacionada com um trem cargueiro. A chegada das locomotivas diesel G 8 e posteriormente as famosas G 12 encurtou a vida dessas máquinas. Alguns ferroviários afirmam que na rotunda de Ribeirão Vermelho, em 1967, ainda havia uma "Berkshire" preservada como relíquia (em caráter semelhante ao da elétrica 918 em SJDR hoje). Sua identidade é desconhecida. Porém, a VFCO deu um fim nela antes da década de 1970. Acervo Hugo Caramuru.

Locomotivas da série "600"


As máquinas que foram agraciadas com essa numeração foram gigantescas locomotivas "Northern" 4-8-4, que foram primeiramente adquiridas da Baldwin em 1946 para ver a qualidade do serviço de máquinas de grosso calibre nas linhas da RMV. Foram numeradas de 600 a 603. Inicialmente seu serviços eram razoáveis, e a compra de mais 6 locomotivas 4-8-4 da GELSA aumentou a frota dessas imponentes máquinas, classificadas de 650 a 655. As linhas métricas da velha EFOM nunca viram máquinas tão grandes. Infelizmente essa grandeza foi sua ruína. As linhas em que elas operavam era muito ineficientes para suportar equipamentos de tal dimensão, e o fato de terem sido originalmente projetadas para a bitola standard (1,43m) norte-americana, agravou ainda mais a situação, com um índice altíssimo de descarrilamentos e tombos durante as viagens. Foram aposentadas nos idos da década de 1960 e destruídas em seguida.

RMV 601 em um momento de descanso no pátio de Ribeirão Vermelho, na década de 1940, com trabalhadores do complexo posando diante dela. O tamanho e a imponência da 4-8-4 faz a RMV 117 se sentir toda nanica lá atrás. Foto da coleção de Hugo Caramuru.

Pode parecer difícil de acreditar, mas isso aí é a Rede Mineira de Viação! Nessa foto, a "tripulação" da RMV 652 (maquinista + 2 foguistas) posa diante da maior locomotiva da companhia. Era necessário um tender de 12 rodas (rodagem 3+3) para carregar quantidade suficiente de carvão para manter a máquina abastecida durante as viagens. Infelizmente, a glória dessas gigantes foi manchadas pelo uso em vias inadequadas e o alto número de acidentes. Acervo de Hugo Caramuru.

  • Locomotivas da série 100: 2-6-0,2-6-2, 4-4-0 e WT's (tanque).
  • Locomotivas da série 200: 4-6-0 Ten-Wheeler (200 a 250)
  • Locomotivas da série 300: 4-6-2 Pacific (300 a 340)
  • Locomotivas da série 400: 2-8-0 Consolidation (400 a 440)
  • Locomotivas da série 500: 2-8-2 Mikado (500 a 530) e 2-8-4 Berkshire (500 a 555)
  • Locomotivas da série 600: 4-8-4 Northern (600 a 603 e 650 a 655).

Um comentário:

  1. A foto com acidente com a 242 da RMV, eu tenho uma foto deste acidente em miniatura, esse acidente foi no trecho entre Barra Mansa-RJ x Angras dos Reis, na escrita atrás da foto meu falecido pai cita que ocorreu em 18/04/1957, eu ainda nem nascido era na época.

    Maquinista: Carlos de Souza Rezende ( in-memoria)

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