terça-feira, 10 de abril de 2012

A Montreal Locomotive Works na RFFSA (ALCo RSD-12)

     A Rede Ferroviária Federal S/A, ou RFFSA, em seu ápice de operação, chegou a lidar com mais de 40 modelos diferentes de locomotivas (fora as vaporosas), operando em duas bitolas diferentes. Entre as máquinas dieseis e elétricas, que já apresentavam decadência, as máquinas de tração combustível começaram a chamar a atenção por sua praticidade e economia. Para começar,eram equipamentos versáteis, que necessitavam de manutenção bem menos trabalhosa, mais barata do que manter a complexa rede de catenárias das locomotivas elétricas. além disso, seu combustível era barato, versátil e não se esgotava com pane elétrica ou "apagão". Assim, a RFFSA e as outras empresas filiadas ao transporte de cargas sobre trilhos passou a valorizar as máquinas de tração a diesel.
  Uma dessas empresas era a Companhia Siderúrgica Nacional, ou CSN. A empresa, uma das maiores do país no ramo de fabricação de aço, também tinha direitos de uso dos trens da ferrovia. Querendo uma alternativa ás locomotivas EMD SD18 e indignados com o péssimo desempenho das U20C nos trens de cargas, os superintendentes da fizeram uma encomenda á Montreal Locomotive Works, uma subsidiária da American Locomotive Works(ALCo) no Canadá de dez locomotivas RSD-12, com 1800 hp de potencia, fazendo uso do motor ALCo 251-B V-12, com parafernália elétrica fornecida pela General Eletrics. As máquinas chegaram ao Brasil em 1962.

Ficha de propriedades das locomotivas RSD-12 que chegaram ao Brasil para uso na RFFSA/EFCB. Foto do acervo do site VFCO Brazilia.
  O uso dessas máquinas nas antigas linhas da E.F Central do Brasil em São Paulo foi relativamente curto, pois as linhas da SR-2 apresentaram um problema e precisaram dos equipamentos da MLW. Nas linhas do Horto Florestal, em Belo Horizonte, a maioria das locomotivas de grande potencia, como as SD18 e derivadas, não conseguiam passar por dentro dos antigos túneis da EFCB, que eram adequados apenas a locomotivas a vapor e máquinas leves. Cansados de usar as detestadas U20C nessa linha, a RFFSA apanhou duas RSD-12 da SR-4 e as levou para a capital mineira em caráter experimental no Horto. Sucesso total. As máquinas MLW se mostraram bastante eficazes com a capacidade de tração dentro dos antigos túneis, sendo as máquinas EMD mandadas para operar em outros lugares.

A imponente MLW RFFSA 7154 em um momento de descanso em algum pátio da Ferrovia do Aço. Década de 1980, autor desconhecido.
  Conhecidas como "Jumbão", devido ás grandes dimensões e á potencia, as RSD-12 passaram a ser a locomotiva predominante no Horto Florestal em Belo Horizonte.Os projetistas e engenheiros da RFFSA procuraram aprimorar ao máximo o desempenho dessas locomotivas, modificando seu sistema de ventilação para que o superaquecimento dos motores fosse evitado e comprometesse a estabilidade do equipamento (as outras locomotivas da ALCo adquiridas pela RFFSA, como a S-1, a RS-1, parte das famosas RS-3 e as FA-1 apresentavam esse problema de superaquecimento). Para manter as "máquinas do Horto" ainda em funcionamento, em 1986 foi apresentado o "Projeto Bombardier", que consistia no aprimoramento dos motores para aumentar sua capacidade de tração, passando de 1800 hp para 2000 hp.
  Infelizmente, a Montreal Locomotive Works havia falido e não podia mais suprir a demanda de peças de reposição para o equipamento. Tanto que em 1990, apenas três locomotivas RSD-12 ainda se encontravam em funcionamento, e mesmo assim bem capengas. A RFFSA tenta mais um esforço para salvar as locomotivas e manda as remanescentes para a General Electric da cidade mineira de Contagem, onde foram modificadas tanto interna quanto externamente.
  Depois dessa última reforma, as três locomotivas sobreviventes foram nadadas para trabalhar na Ferrovia do Aço, como trens de apoio. Quando a ferrovia foi concluída, as locomotivas foram mandadas de volta á SR-4, onde foram encostadas á espera de um destino. Há um ou outro relato infundado de que alguma tenha ficado nos pátios de Belo Horizonte. Todas essas imponentes máquinas foram baixadas, e se restou alguma, é bem improvável que seja restaurada. Lost forever.


Fim da linha: Locomotiva MLW RFFSA RSD-12 7156 sendo depenada em um pátio em São Paulo. Não se sabe se seus restos mortais ainda existem. Foto do acervo Wikipedia.

7 comentários:

  1. O pátio acima, em São Paulo, provavelmente é o da Lapa, onde até hoje tem muitas Lambretinhas (GE 88T), TUEs como o 141 (Classe Única), e alguns desativados recentemente pela CPTM, como Séries 1400 e 1600. Talvez ainda exista uma RSD-12 perdida por lá. Outro lugar interessante pra procurar é no Horto Florestal, onde também tem locomotivas, muitas ALCO. Abraço.

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    1. Demais, Thales.O mais exótico disso tudo é que as RSD-12 ainda se encontram na ativa nos EUA, enquanto aqui no Brasil elas apodrecem em pátios. Não é confirmado, mas provavelmente em julho farei uma viagem ás cidades de São Paulo, Campinas e Paranapiacaba para conhecer o material ferroviário de lá, e verei se sobrou alguma locomotiva MLW com meus próprios olhos, e farei a parte II dessa postagem. Obrigado!

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    2. Saiu a resposta. Sim, sobraram umas três ou quatro RSD, mas estão bem maltratadas no pátio da Lapa,; possibilidade de retorno neutralizada.

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  2. Aqui em minas, grande parte das locomotivas da Rede estão sendo usadas pela FCA. Porém, estão com a pintura toda estragada :(

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    1. As máquinas da RFFSA sob responsabilidade da FCA tem três pinturas diferentes: a vermelha e amarela da RFFSA, a laranja e azul da FCA Fase I e a laranja-restart com branca, da Fase II, sendo essa última uma pintura incomum nas ferrovias brasileiras. As máquinas apresentam essa pintura devido ao escurecimento pela fuligem e ao fato de essas máquinas não terem sido ainda mandadas para as oficinas de Divinópolis para receberem repintura.

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  3. Boa tarde nobres entusiastas.
    Essas locomotivas na foto, trabalhei com elas em Santos-SP em 1974 at´1980, quando foram substituidas pelas U20.
    Essas locos eram muito duras, e já estavam "no bico do corvo" quando trabalhei com as mesmas.Hoje aposentado desde 2002 em Jundiaí-SP, digo uma coisa"NA ÉPOCA DA RFFSA, EU ERA FELIZ E NÃO SABIA".
    Após a privatização, peguei nojo.


    Duarte

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    1. RFFSA foi a época de ouro dos trens no Brasil. tanto carga quanto passageiros. Depois disso, já era. Tem muitos ferroviários aposentados que fazem a triste pergunta se seus filhos virão a botar seus pés em um trem de passageiros, no futuro. Enquanto isso, o passado vai virando farelo e comida de maçarico nos pátios.

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