segunda-feira, 23 de abril de 2012

Locomotivas de bitola métrica da RMV - Remanescentes

    A Rede Mineira de Viação (RMV) deteve por muitos anos o título de companhia ferroviária com maior frota de locomotivas do estado de Minas Gerais. Juntando as locomotivas de bitola de 0,76m com as de 1,00m, a ferrovia já teve mais de 150 máquinas em operação simultaneamente. Infelizmente, com a dieselização das linhas métricas e a demanda de maior número de cargas transportadas por trem, as locomotivas a vapor da RMV foram sendo deixadas de lado, abandonadas em pátios e galpões e sendo mandadas aos poucos para as valas de corte, até que restavam poucas inteiras, e infelizmente a maioria estava em mau estado de conservação.
   Quando da criação da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), em 1977, a mesma procurou contatar a RFFSA, então detentora dos materiais ferroviários históricos, para que a empresa cedesse essas locomotivas e vagões á entidade, que por sua vez, iria restaurá-los e colocá-los em ordem de marcha em trens turístico-culturais. As locomotivas que não foram doadas á ABPF, foram vendidas para as prefeituras de muitas cidades, que as restauraram e mantiveram as mesmas bem-conservadas como monumentos em praças.
  Confira abaixo imagens das vinte e uma locomotivas da RMV de bitola métrica que foram preservadas para a posteridade, para nossa contemplação.

A locomotiva Nº157 é a única American preservada. Atualmente está mantida como monumento estático na cidade de Varginha-MG. Acervo de Hugo Caramuru.
A locomotiva Nº205 foi doada pela ABPF a um grupo de empreendedores turísticos em parceria com a prefeitura de Pouso Alegre, que manteve um pequeno trem turístico em operação durante algum tempo. A ideia não vingou e atualmente a locomotiva se encontra parada e sem uso.
RMV 206, preservada no distrito de Conservatória-RJ como monumento em memória da ferrovia na região. É uma das atrações turísticas mais queridas no município, por isso a máquina sempre está bem conservada. Foto: Acervo da Prefeitura de Valença.
A locomotiva Nº210 é uma das pioneiras da ABPF no Brasil, tendo sido uma das primeiras a serem restauradas pela organização, salvando a máquina debilitada dos pátios de Engº Bhering. Acervo NEOM-ABPF.
Deixada para trás... A RMV 213 ficou mantida na cidade de Três Corações como monumento estático, pelas mesmas razões da 206: memória industrial e cultural. Foto do site Viagem nos Trilhos
RMV 215, a grande estrela da ABPF Campinas-Jaguariúna, que foi a primeira locomotiva a ser restaurada e posta em movimento pela entidade. Na época, os membros da ABPF resolveram até criar uma placa para batizar a máquina com o nome do francês Patrick Dollinger, o patriarca da ABPF no Brasil. Foto: Acervo ABPF - Campinas.
Já a RMV 220 não teve tanta sorte assim. Os responsáveis pela RFFSA de São João del-Rei decidiram partir a caldeira e o tender do equipamento ao meio para que pudesse ser feita uma demonstração do mecanismo "steam", para satisfazer a curiosidade afoita dos visitantes do futuro museu. Forever alone. Foto: Acervo de Thiago Lopes de Resende.
A RMV 223 estava definhando em um pátio de Três Corações, MG, até que uma parceria entre a prefeitura de Piquete, SP e a fabricante de armamentos IMBEL fez com que a máquina fosse submetida a restauro externo. Está pintada com as cores da EFCB. Imagem cedida por www.pulsar.com.
Na pequena cidade de Maria da Fé-MG, temos a RMV 225, fruto da engenhosidade dos mecânicos da companhia, que a construíram inteiramente com peças de reposição que chegavam da Baldwin e se encontravam em excedente nas oficinas, na década de 1920. Foto do site Viagem nos Trilhos.
A RMV 423 é uma 2-8-0, preservada no Museu do Trem de Cristina - MG.
O município de Itaúna-MG possui a RMV 227, preservada no pequeno museu da cidade. Se encontra em razoável estado de conservação. Acervo da Prefeitura de Itaúna.
Já a RMV 232 foi levada para a ABPF-SC, onde foi colocada para trabalhar nas composições de passeio da companhia. Acervo ABPF.
A RMV 233 foi tirada da proteção do Complexo Ferroviário de Lavras e posta em uma praça, totalmente á merce de vândalos e depredadores. Atualmente se encontra assim, totalmente descaracterizada, á espera do socorro que tardará a vir. Foto de Anderson Nascimento.
Ferroviários posam diante da RMV 235, ostentando ainda o limpa-trilhos de madeira que viria a ser substituído anos depois. Hoje a locomotiva se encontra firme na ativa em Santa Catarina, servindo ao propósito para o qual foi criada. Foto: Acervo de Hugo Caramuru.
A RMV 236 está fazendo parte do grande acervo da V.F. Campinas-Jaguariúna, porém foi escolhida para ser preservada imóvel ostentando as cores da Cia.Mogiana.
Junto da RMV 220 ficou a locomotiva Nº239, retirada da rotunda de Ribeirão Vermelho para engrossar o acervo do Museu Ferroviário da EFOM em São João del-Rei. Foi restaurada e se encontra guardada na rotunda sem qualquer utilidade aparente. Acervo NEOM-ABPF.
O Complexo ferroviário de Ribeirão Vermelho era bastante rico em materiais, ainda que em abandono. Todo o acervo de lá foi levado para outras localidades do Sul e do Sudeste. Apenas a RMV 315 ficou como monumento atestando do passado da vila.
Após anos sofrendo com a ação corrosiva do tempo, a RMV 325 foi restaurada com iniciativa particular e levada para Bom Despacho-MG, onde permanece exposta como escultura, apresentando as cores da E.F Paracatu.
A imponente RMV 332 foi uma das peças mais importantes da ABPF - Sul de Minas, sendo a estrela atual do trem de Passa Quatro - MG. Foto de Felipe Sanches. 
A locomotiva Nº338 se encontra em ordem de marcha na estação de Anhumas - SP, permanecendo como uma das máquinas mais formosas da organização. Foto de Robson Santos Souza.

A última locomotiva adquirida originalmente pela E.F.Oeste de Minas é a RMV 520, aguardando pacientemente o momento de ser restaurada pela ABPF em Cruzeiro-SP.Acervo NEOM-ABPF.

Locomotivas adquiridas pela Rede Sul-Mineira (R.S.M)


A Rede Mineira de Viação (RMV) surgiu após uma decisão do governo de Minas Gerais em aumentar as malhas da então RMV-Oeste adicionando-lhe mais algumas ferrovias regionais, em 1931. Exemplos são as Viação Férrea Sapucaí e a E.F Muzambinho; mais algumas companhias menores que formaram a Rede Sul-Mineira, que durou apenas pouco mais de 20 anos sozinha; teve que ser arrendada pelo governo e engolida pela EFOM, formando posteriormente a RMV. Porém, nesse tempo a companhia pode adquirir locomotivas da Baldwin e da L.Schwarzkopff,, que mais tarde foram incorporadas á frota da RMV, o que não encobre a sua origem. Veja as máquinas remanescentes da RSM abaixo:

A pacific Nº307 é uma das duas máquinas de origem alemã que sobreviveram ao tempo. Se encontra preservada na rotunda de S.J.del-Rei, ainda que sofrendo com a ferrugem que se apresenta em algumas partes do maquinário, ameaçando sua estabilidade. Acervo de Thiago Lopes de Resende.
Funcionários da RFFSA e membros de entidades preservacionistas posam em frente á VFCO 505, outra máquina germânica que só foi salva de ser transformada em panela pelo trabalho da ABPF de Campinas, que ganhou o direito de restaurar a máquina e operá-la na V.F Campinas-Jaguariúna. Acervo de Hugo Caramuru.
Em um belo dia de abril de 1980, a RFFSA SR-2 Nº522 arrasta uma infeliz locomotiva para a vala de corte. Por ter resistido ao desgaste natural das peças, a RFFSA de Barra Mansa decidiu usá-la como locomotiva manobreira no pátio de sucata da cidade. Quando o material ferroviário para cortar acabou, a locomotiva Nº522 foi encostada e deixada ao tempo por 20 anos, até que a ABPF - Regional Sul de Minas encontrou a máquina em um pátio e conseguiu permissão para restaurar o equipamento. Os trabalhos de recuperação estão em andamento. Foto do acervo NEOM-ABPF.
Apesar de suas dimensões desajeitadas,a ten-wheeler Nº246 foi comprada pela E.F Goiás para tracionar trens mistos. Passou para a RSM e depois para a RMV, onde trabalhou até a aposentadoria da tração a vapor. Depois de quase 20 anos abandonada em Araguari, a locomotiva foi restaurada e hoje pode ser contemplada no Museu Pires do Rio, em Goiás. Foto da coleção de Hugo Caramuru.

Outras locomotivas


Além das máquinas adquiridas pela RMV e pela RSM, existem as máquinas que apresentam alguma peculiaridade e não se encaixam em nenhuma das categorias acima. Restaram apenas duas locomotivas, preservadas em diferentes cidades do Brasil.

Outra "experiência" da RMV no ramo de construção de locomotivas por conta própria, a locomotiva Nº340 foi montada com peças forjadas nas oficinas da companhia; apenas a caldeira é original da Baldwin, originalmente pertencente á uma locomotiva "Shay" (transmissão por eixo cardã.) Atualmente a 340 se encontra preservada em Divinópolis, cidade onde a mesma foi construída. Foto de Hélio dos Santos Pessoa Júnior. 
Por fim, a RMV 431 (Ou seria 437?), outra 2-8-0 da companhia que foi restaurada pela ABPF - Regional Campinas, e posta na ativa da frota da VFCJ, sob o Nº222. A história dessa locomotiva é bastante confusa, e as informações sobre a mesma são raras, por isso apenas a Nº423 permanece oficialmente como Consolidation da RMV/Oeste. Crê-se que essa locomotiva foi comprada pela E.F Muzambinho. Foto de Vanderlei Antônio Zago.
     Com 21 locomotivas originárias da RMV-Oeste, quatro da RSM e mais duas locomotivas especiais, totalizam 27 locomotivas de bitola de 1,00m, além das dezoito máquinas de bitola de 0,76m. O total de peças do acervo da velha RMV é de 45 máquinas a vapor de duas bitolas diferentes, além de duas locomotivas elétricas, adquiridas na década de 1950 pela companhia.

11 comentários:

  1. Por nada! Se voce tiver alguma foto da RMV 227 compartilha com a gente, fotos dessa unidade são raríssimas rsrsrsrs Abraço!

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  2. Oi pessoal, eu trabalho no Museu do Trem de São Leopoldo e gostaria de saber se alguem sabe algo sobre uma possivel doação da locomotiva n°520 para o nosso Museu. Obrigada
    Qualquer noticia, por favor entrem em contato comigo: thaismbitelo@gmail.com

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    1. Olá Thais, essa locomotiva, a RMV 520, atualmente se encontra em aguardo de restauração nas oficinas da ABPF - RSM em Cruzeiro para ser utilizada em condição operacional no trajeto do Trem da Serra, dificilmente eles a cederiam para ficar em exposição estática em algum museu regional, dado que ela está no aguardo nas oficinas durante muitos anos.

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  3. Bela pesquisa, belas locomotivas e belas imagens.
    Resumindo: esta postagem está uma belezura!

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    1. Obrigado, Sylvio! Vem mais dessas por aí.

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  4. Bom dia João, e parabéns pelo belo trabalho!

    Senti falta, porém, da 222, entre as remanescentes da RSM. Essa locomotiva se encontra em poder da ABPF-Campinas e está em plena forma.

    No mais, o site está irretocável!

    Abraços

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  5. Alguem sabe quantas locomotivas a vapor Ten Wheeler 246 tem no Brasil?

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  6. Fotos recentes da ten wheeler 246 neste site: http://www.fototrem.com.br/exibepprefixo.php?prefixo=246

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  7. Alo galera, ex-ferroviarios e afins, fui ferroviario de dez de 1983 a abr de 2003, quando fui demitido, a loco a vapor 302 apelidada de "Teresa Cristina", esta em frente da antiga estacao de Bananal - SP, estacao esta construida na Belgica, e inaugurada em 1889. Abracos a todos. Marcio de Souza Lima

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