domingo, 1 de abril de 2012

A locomotiva "Eu Menti" (RFFSA SR-2 70)

  Das 60 locomotivas que compuseram o parque de tração da Estrada de Ferro Oeste de Minas, restaram apenas 18. Felizmente, essas máquinas se encontram em bom estado de conservação e podem ser vistas por qualquer admirador ferroviário. Porém, o que aconteceu com as peças das 42 locomotivas sucateadas?
   Na época da Rede Mineira de Viação (RMV) foram registrados o maior número de sucateamentos. Aproximadamente metade das máquinas da frota da EFOM foram destruídas nessa época, processo que se acelerou depois do ano de 1954, com o fim da Baldwin Locomotive Works, que fornecia peças de reposição para os equipamentos em bitola métrica e bitolinha da RMV. Sendo assim, os mecânicos da companhia bolaram uma estratégia. Fazendo um check-in geral nas máquinas, a equipe de manutenção descobria aquelas que apresentavam um desgaste geral mais avançado e as mandavam para uma linha á parte do restante do Complexo Ferroviário, onde ficavam estacionadas sofrendo a ação do tempo, e servindo de fornecedoras de peças extras para as locomotivas que se encontravam em operação. Á medida que as máquinas eram cada vez mais depredadas, ficava mais difícil a sua recuperação, e o pessoal da ferrovia não tinha nenhuma outra alternativa senão cortá-las, vender ou fundir o metal, ou em último caso, jogar a caldeira no rio (bastante frequente em Ribeirão Vermelho). Quanto aos maquinistas, foguistas e até mesmo sucateiros das locomotivas perdidas, alguns chegavam a fazer "coleção" de placas do fabricante e dos dísticos (números) retirados das locomotivas.
  Anos mais tarde, já no período de transição entre a Viação Férrea do Centro-Oeste (VFCO) e a RFFSA, o parque de locomotivas da EFOM se resumia a apenas 25 locomotivas. Na fila de morte, aguardavam as locomotivas Nº5, Nº61 e Nº16, que depois passou a acomodar também a consolidation Nº63, que havia apresentado problemas na caldeira e tinha sido rebocada para a linha fatal há pouco tempo.

VFCO 63 na fila de morte, década de 1970. O cilindro de distribuição do freio foi arrancado, o apito, o gerador elétrico também foi levado e o farol foi reaproveitado em outra máquina.
Enquanto a VFCO 63 agonizava em seus últimos instantes, outras locomotivas se destacavam no ranking de tração de cargas da RFFSA/EFOM. Os ferroviários tinham especial apego pelas locomotivas Nº69, 70 e 71, tidas como as mais fortes da bitolinha. Porém, a locomotiva Nº69 estava em trens mistos ou na manobra e a locomotiva Nº71 tinha sido mandada para o corte há quase 20 anos antes do ocorrido, o que fazia que a nº70 ficasse com a fama de supermáquina só para ela. E foi essa fama que se transformou em sua ruína. Abusando de sua potencia por anos a fio, aliado á manutenção apressada e precária, o serviço cargueiro terminou para ela no ano de 1975, e a locomotiva foi levada para a fila de morte devido á falhas nos cilindros. Tirando isso, o resto estava em perfeita ordem.

Um rapaz posa para fotografia sobre a locomotiva Nº70, quando ela já estava parada na fila de morte. Acredita-se que este seja o último registro da mesma com o número. Autor desconhecido.
Com a melhor das locomotivas da EFOM parada, o trabalho pesado recaiu inteiramente sobre as locomotivas Nº55,58,60,62,66,68 e 69, que se encontravam em plena ativa. Uma delas, a RFFSA SR-2 Nº55, ainda sob o esquema de cores da VFCO, não aguentou a carga de trabalho e sucumbiu á fadiga. Mandada para a oficina, foi constatado que a caldeira da mesma estava acabada, inutilizando o equipamento e o condenando ao corte.

VFCO 55 já bichada, parada nas oficinas com a placa "Não pode mover" incrustada em sua dianteira. Atrás dela, o tender da Nº70, aguardando destino. 1974, foto de Guido Motta.
Com três máquinas inutilizadas, mas ainda com um considerável número de peças em bom estado, o pessoal da RFFSA decidiu fazer uma "experiencia". A exemplo dos seus conterrâneos da Rede Mineira de Viação, que construíram as máquinas Nº225, Nº339 e Nº340 com peças de outras locomotivas, decidiram construir uma máquina com as peças das locomotivas Nº63, Nº55 e Nº70. Deram ordem imediata para que se cortasse os restos da Nº63 e verificassem o que poderia ser aproveitado. Puseram as partes boas da Nº63 sobre uma gondola, e pegaram as máquinas Nº55 e Nº70 e as rebocaram em um trem cargueiro até a cidade de Ibiá, onde havia uma grande oficina de manutenção. Ambas as máquinas foram levadas para a vala, e cortadas em várias partes.
  Tempos depois, a locomotiva Nº55 volta rodando por conta própria para São João del-Rei, e causa verdadeiro espanto nos maquinistas com sua nova composição. Examinando o equipamento, concluíram que:



  • Da VFCO 63, foram aproveitados apenas a caixa de fumaça (parte da caldeira que abriga a chaminé) e a placa do fabricante (BLW 10497, Dezembro de 1889). O resto foi jogado fora.

  • Da VFCO 55 quase nada pode ser aproveitado, tão debilitada que a máquina estava. Porém, o defeito maior se encontrava apenas na caldeira, na fornalha e nas peças de transmissão. As rodas, o longerão e alguns dos cilindros foram aproveitados.
  • Já a VFCO 70 levou a melhor (ou menos pior) nessa história. O tender, a cabine e suas peças, a caldeira e seus acessórios bem como a tampa frontal da caldeira, puderam ser utilizados na construção da nova locomotiva. Tirando as rodas, o longerão, os cilindros e a "casca" da caixa de fumaça, a atual locomotiva Nº55 é a Nº70, na realidade. Da verdadeira identidade da 55, só resta o número. O resto virou sucata.
E porque a nova locomotiva, maldosamente conhecida entre os ferroviários como "frank", não recebeu o Nº70, dado que 80% da máquina de misturas pertencia ao mesmo? A razão é uma só: memória. Os ferroviários não quiseram manchar a memória da legítima Nº70 com uma locomotiva que mais parecia uma colcha de retalhos. Como o número da 63 havia desaparecido, o 55 acabou prevalecendo. Quanto ao número 70 da locomotiva, provavelmente foi apanhado por algum caçador de souvenir ferroviário que trabalhava em Ibiá. A nova 55 ainda trabalhou bastante na RFFSA, antes de ser aposentada e mandada para a rotunda junto com as outras.

Locomotiva RFFSA SR-2 Nº55 "Frankestein" em pleta atividade, ano de 1979. Foto de Herbert Graf.
Atualmente, a locomotiva pode ser vista na rotunda de São João del-Rei. As características peculiares de cada locomotiva podem ser vistas no equipamento. 

  • Nota: Na década de 1980, um fotógrafo flagrou a locomotiva Nº42 fazendo uso do dístico da falecida Nº63, na estação de Barroso. Provavelmente seu maquinista se apoderou do número do equipamento quando o mesmo foi mandado para o corte e usou o número só de brincadeirinha, ou a peça original da Nº42 apresentou algum defeito. Veja a foto abaixo:
Clique na imagem para ampliar: Com um pouco de atenção, você consegue distinguir o número 63 no dístico da locomotiva. As razões para ele estar lá, sendo que a máquina ao qual ele pertenceu  foi cortada  dez anos antes são desconhecidas.
No fim das contas, se conclui que a máquina Nº55 que vemos na rotunda é a Nº70, tal foi a quantidade e o volume das peças que foram aproveitados nela. 55 só é o número. São os mistérios da EFOM.

2 comentários:

  1. As locomotivas 70, e a 63, marcaram época há 60 anos atrás. Apitos, 70: rascante, agressivo, curto!
    63: Melancólico,até triste, parecia estar pedindo socorro, fazia as viagens, no dia da festa de Tiradentes: SSS. Trindade.
    Maquinistas; João Cabecinha, e Luiz Carneiro.

    ResponderExcluir
  2. Amigo, quando li seu comentário fiquei aqui imaginando como devia ser a musicalidade de cada apito dessas belas máquinas. Muto obrigado pelas informações tão interessantes e volte sempre. É uma verdadeira pena que a 63 tenha sido baixada e a 70 transformada em 55. Tempo bom que não volta mais.

    ResponderExcluir