segunda-feira, 9 de abril de 2012

Carros e vagões da Oeste de Minas - Administração

 Na maior parte dos casos, uma ferrovia é criada ou instaurada em determinada região com o intuito de transportar cargas ou passageiros entre duas ou mais localidades. E o que seria da companhia ferroviária sem uma boa frota de vagões? São eles que acompanhados da locomotiva formam o conjunto ao qual denominamos "trem". Na EFOM não era diferente. A companhia, que já chegou a ter a maior frota de vagões de carga e carros de passageiros de Minas Gerais, atualmente conta com apenas uma pequena parte dessa grande leva que transportou o progresso do Estado.


Carros de luxo (Administração) da E.F.O.M




Os carros da Administração da Estrada de Ferro Oeste de Minas foram desenvolvidos com a intenção de transportar pessoas de alta classe em seu interior. Seu uso também está intimamente relacionado com as inspeções de linha e o transporte de autoridades e potros convidados importantes. Geralmente, ficavam bem no fim da composição, por duas razões: Em caso de acidente, quem estivesse lá dificilmente viria a se ferir no descarrilamento, e era equipado com uma varanda para que os passageiros pudessem desfrutar de ar fresco e apreciar a paisagem. Em alguns exemplares, eram acoplados faróis e um limpa-trilhos traseiro para o caso de o trem fazer a viagem de volta com a ré engatada (de tender, no jargão dos maquinistas), o que proporcionava que os os ocupantes do luxuoso carro pudessem ter uma vista  de frente da paisagem. Esses vagões tiveram muito uso em todos os períodos da EFOM, mas foram aposentados após a erradicação. O último uso desses carros nas linhas da E.F Oeste de Minas foi em 1984, apenas semanas antes do fim. Surpreendentemente, a maioria dos carros Administração foi preservada, e pode ser contemplada pelos admiradores dessas obras de arte.


Carro A-1, mantido desde a década de 1980 como enfeite defronte ao prédio da RFFSA SR-2, atualmente se encontra em sério estado de decomposição devido ás condições climáticas ao qual ele foi submetido. A FCA não sabe o que fazer com ele e enquanto isso, o carro fabricado nos EUA em 1907 vai se deteriorando e pedindo socorro.

O antes e o depois: O carro A-3 atualmente é o carro Administração mais bem conservado, que está bem protegido das intempéries na parte interior do museu. Acima, o carro A-3 parado na estação de Barroso, em plena atividade. Autores e datas desconhecidas. Datado de 1912, foi construído pela empresa norte- americana Bethelem Shipbuilding Corporation para substituir o velho carro que transportou Dom Pedro II na viagem de inauguração da EFOM.
O carro A-5, de 1908, era tão versátil que foi usado pelas autoridades sanitárias do Estado de Minas Gerais para viajar pelas cidades onde a ferrovia passava. Depois, foi usado por um curto tempo como vagão de socorro pela VFCO, mas voltou a ter a nomenclatura A-5 com a RFFSA. Atualmente se encontra em péssimo estado na carpintaria. Segundo Juliano Marchetti, autor da imagem, "faltam muitas tábuas no assoalho, e o último compartimento está cheio de tralhas." Lamentável. Muitos defendem abertamente seu restauro, já que é o único carro com design "caboose" da EFOM que foi preservado, e a equipe da Ferrovia Centro-Atlântica faria bom uso dele nas composições de via permanente, como vagão de transporte de pessoal.
Carro A-6, mantido como decorativo na gare da estação. Atualmente se encontra guardado na rotunda, embora fosse benquisto o seu uso nas composições turísticas da FCA. Antigamente, o A-6 era usado de carreirinha com o A-1 em composições especiais, devido ao design das janelas, único apenas desses dois vagões. 
O carro A-7 era um carro totalmente fechado, usado para o transporte de valores e os saques dos bancos e estabelecimentos comerciais das cidades por onde o trem passava. Chegando a Aureliano Mourão, os produtos eram passados á bitola métrica, onde eram despachados para o Rio de Janeiro e Belo Horizonte (1880-1960) e posteriormente Brasília e Belo Horizonte (1960-1984). Atualmente foi submetido a restauro, e pode ser contemplado na parte externa do Museu Ferroviário.
Carros de bitola métrica da E.F.O.M/R.M.V


Com a construção do Museu Ferroviário, a RFFSA decidiu adquirir também muitos carros de bitola métrica, para servirem de peças exóticas na estação. Dos 4 carros que foram trazidos porém, apenas dois cumpriram o propósito original de serem expostos. O resto foi deixado de lado.


Aspecto do luxuoso carro O-151, construído nas oficinas da RMV em Cruzeiro - SP em 1928 e adquirido pela RFFSA no final da década de 1970: mantido como uma das mais belas relíquias do Complexo Ferroviário. Foto do site Trens do Brasil.
Outro oriundo da EFCB é o carro O-104, xodó dos ferroviários desde quando chegou na década de 1980. Sua estrutura não se difere muito das dos carros A-1 e A-3. Atualmente se encontra preservado em bom estado na rotunda. Foto de Hugo Caramuru.
Carro PL-101, que foi trazido de Engenheiro Bhering na década de 1980 para compor o acervo do Museu Ferroviário. A RFFSA iria aplicar um processo de restauro profundo nele, mas nunca o fez. Atualmente se encontra no mesmo lugar, onde a FCA já providenciou rodas para ele. Foto de Renato Libeck.
O último dos carros métricos presentes em são João del-Rei é o FNB-64417E, também trazido de Engenheiro Bhering e não restaurado pela RFFSA. Atualmente se encontra na carpintaria, em delicado estado e sem os truques. Acervo NEOM-ABPF

18 comentários:

  1. Tão belo é o vagão que tem aqui em Belo horizonte no prédio da RFFSA! Pena que foi pichado por "vandalos" de cidade grande :(

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    1. Essa gentalha sem-cultura não tem jeito mesmo! Mesmo que o A-1 fosse trazido para São João del-Rei e restaurado, ele não teria nenhuma utilidade, senão a de ficar encerrado na rotunda.

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  2. Essa ultima foto é do NEOM-ABPF. É uma merda de fotografia, mas tem autoria.

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  3. O carro O-151 foi fabricado pela própria RMV em Cruzeiro - SP, dúvido que em algum momento tenha sido da EFCB, deve ter sido sempre da RMV.

    Se não me engano um dos carros da métrica que vieram de Eng. Behring foi fabricado em Cruzeiro também.

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    1. Sr. BCS, aqui em São João del-Rei há uma coleção de quatro carros métricos, trazidos de EngºBhering e Ribeirão Vermelho na década de 1980 pela RFFSA para compor o acervo do museu ferroviário. Podem ter sido fabricados tanto em Cruzeiro, quanto em Divinópolis, Lavras, Ibiá, Ribeirão Vermelho e outras oficinas grandes. Á exceção do 0-104, todos os outros carros tem sua origem incerta, podendo ter passado tanto pela EFCB quanto pela RMV, a informação não é confirmada.

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    2. O O-151 tenho fotos dele mostrando as placas de fabricação, foi feito em Cruzeiro nas oficinas da RMV, a RMV não fabricava carros para outras ferrovias, apenas para uso próprio.

      T+

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    3. O O-151 foi fabricado em 1928 nas oficinas de Cruzeiro - SP, provavelmente ainda no período da Rede Sul Mineira, ou RSM (o brasão da companhia é ostentado nos enfeites laterais do carro). Depois é que ele foi transformado em propriedade da RMV, em 1931. O que faz alguns pensarem que ele trabalhou na EFCB, mesmo que por curto tempo, é o fato de ele ter sido adquirido pela RFFSA para compor o acervo do Museu Ferroviário, onde também há o O-104, por sua vez oriundo da Central. O prefixo é o mesmo, mas as origens são diferentes. Obrigado pelas valiosas informações e volte sempre.

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  4. Por nada e parabéns pelo site, esta bem legal!

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    1. Obrigado, siga o site porque vem mais novidade por aí.

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  5. Saudações, meu caro amigo João!

    Bem, meu caro, o Carro Administração A1 em madeira, da Estrada de Ferro Oeste de Minas, que se encontra aos pedaços no prédio da FCA em Belo Horizonte, fora, na realidade, construído em Lavras - MG, em 1907 mesmo! Digo isto, porque vi a placa dele, no piso do carro, na parte trazeira! Bem, o Carro conta já com 104 anos de história, de uma rica e fascinante história, como um dos patrimônios culturais mais incríveis de nossa memória histórica, infelizmente, um passado histórico que está sendo jogado no lixo! A FCA não sabe o que fazer com este carro (e, cá entre nós, nem sequer se interessa por isso, não liga a mínima mesmo) e o IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, ou está de perna quebrada, de muleta, ou o que é mais provável, fora comprado por uma política que bem poucos de nós conhecemos, tem todo um interesse na destruição de toda forma de cultura e memória histórica dessa nossa sociedade brasileira! Ou seja, uma política externa, representada aqui no Brasil por uma elite que tem absoluto domínio sobre o Estado! Cá entre nós, um povo ignorante, sem memória cultural, é um povo muito mais fácil de ser dominado e massacrado, é ou não é? O Jornal "O PASQUIM", de 1969, denominava essa política e essa elite de "O COISO". É realmente uma lástima amigo, mas este Carro Administração A1 está condenado! Uma pena mesmo!

    Forte abraço!

    Hélio dos Santos Pessoa Júnior

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    1. Saudações retribuídas, amigo Hélio! Em Lavras??? Não sabia! Consta nos truques dele que ele veio da empresa norte-americana Harlan & Hollingsworth, de Wilmington, Delaware. Provavelmente deve ter sido totalmente reconstruído e modificado em Lavras, quando chegou. Agora, em detrimento dos fatos atuais, eu não sei que espécie de pessoa coloca um carro DE MADEIRA para ficar exposto ao tempo por quase 30 anos, e ainda esperar que ele dure! Nos últimos dez anos, a situação dele se agravou pra valer, e se FCA e IPHAN não fizerem alguma coisa, e rápido, o destino do pobre coitado vai ser virar farelo sobre as próprias rodas, feito o RB-15 (um carro-socorro que foi dilacerado em SJDR após abandono por 20 anos). Quando alguém tentar fazer alguma coisa, estará apenas tentando evitar o inevitável. Infelizmente, no país em que eu e você chamamos de pátria, é preciso perder algo valioso para os olhos dos néscios serem abertos para um problema explícito. Aposto como que só vão fazer alguma coisa pelo A-1 quando ele tiver sem teto, sem paredes, ou quando parte dele desabar. É duro dizer isso, mas... que o A-1 descanse em paz. Pelo menos deixem as rodas, assim quem sabe se pode fazer um bolster novo.

      Abraço!

      João Marcos

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  6. Prezado amigo João, boa noite!

    Pois é meu caro, eu não tinha pensado nestes detalhes, pode ser mesmo que ele tenha vindo da empresa Harlan & Hollingsworth, de Wilmington e tenha sido reconstruído em Lavras. Bem amigo, o que se pensar de uma pessoa ou pessoas que colocam um carro de madeira a céu aberto, no tempo, sujeito às intempéries, sem uma proteção, de duas, uma: ou a pessoa é muito estupida (burra mesmo) ou o que é pior, politicamente fez isso de caso pensado! Não é realmente tão difícil de se imaginar esse tipo de sujeira na nossa política brasileira. Quanto à FCA, esta não se sente responsabilizada, senão, pela malha férrea herdada da RFFSA - SR2, SR-7 e SR-8, não assumindo outras responsabilidades sobre o patrimônio da extinta RFFSA, salvo engano de minha parte. Agora, quanto ao IPHAN, este anda perdendo um tempo preciosíssimo com incontáveis e intermináveis inventariados sobre todo o patrimônio das ferrovias! Cá entre nós, não acha que isso é proposital não, só para ter a desculpa de falar que começou a fazer alguma coisa ou teve a mera pretenção???
    É triste realmente, meu amigo, mas concordo com você, que o A-1 descanse em paz!

    Um grande abraço!

    Hélio dos Santos

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  7. Amigo Hélio, infelizmente qualquer uma das alternativas pode corresponder á realidade. No fim da década de 1960, a VFCO começou a dizimar a frota de carros de passageiros da companhia. Vagões inteiros eram deixados apodrecendo em pátios ou queimados e desmontados para fazer lenha, e aproveitar as rodas para montar gondolas e pranchas para transportar minério. O carro Administração A-2 ou A-4, não sei ao certo, estava em perfeitas condições operacionais mas foi vendido para Curitiba, onde virou palitos após 30 anos exposto ao tempo no Parque Barigui. O A-1 foi despachado para Belo Horizonte sob as mesmas condições: não era mais necessário por aqui. Com o tempo, se foi percebendo que era uma decisão néscia. Provavelmente pensaram na época que se o carro se desmanchasse aqui ou lá não faria diferença.Hoje, o A-1 pede socorro. Seus acessórios se encontram em mau estado. O raro ventilador feito pela J. Stone & Co, da Inglaterra, jaz pendurado na parede. A mobília importada, os painéis pintados á mão na década de 1910 há muito desapareceram, e infelizmente agora é uma questão de tempo até a estrutura do carro começar a sofrer danos irreversíveis (que já se encontra em severo estado de conservação). Infelizmente só farão alguma coisa concreta (se FCA e IPHAN se entenderem) quando aquela lona que puseram sobre carro não for mais suficiente. Recentemente, a Ferrovia Centro-Atlântica fez um bom trabalho ao restaurar as oficinas do Complexo de SJDR, possibilitando seu uso para manutenção de carros e vagões. Não vejo razão para não levarem o A-1 para lá. Há equipamento, há logística, o que falta é boa vontade da parte do IPHAN e da FCA, bem como um consenso entre os dois grupos. Enquanto nada é feito, apenas damos nossa opinião. Está nas mãos de Deus agora.

    Grande abraço!

    João Marcos

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  8. Prezado amigo João Marcos, saudações!

    Pois é meu nobre amigo, fico muito grato pela sua informação a respeito do Carro Poltrona Leito PL-101 da ACF, ex RSM. A princípio, cheguei a duvidar, de fato, que este carro tivesse, de alguma forma, integrado alguma composição da EFCB (e foi o que o site de onde achei a foto diz e, por coincidência, tem ela no seu blog), mas em se tratando da majestosa e ilustre Central do Brasil, tudo poderia ser possível né! Mais uma vez fico-lhe grato pelo carinho de sua amizade! Já fiz as mudanças nas descrições do mesmo rsrsss! Valeu amigo!
    Um forte abraço!

    Hélio dos Santos

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    1. Não tem por onde amigo Hélio, pode contar comigo para o que precisar, pois sua amizade é prezada por nosso blog também! Abraço!

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  9. Valeu meu caro amigo!
    Gostaria de esclarecer mais uma dúvida; sendo este Carro PL-101 da ACF - American Car and Foundry, é de aço carbono né? Digo isto, porque na foto ele está parecendo demais ser de madeira e confesso que até cheguei a confundí-lo rsrss
    Aguardo seu retorno meu nobre amigo!
    Forte abraço!

    Hélio

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    1. Aqui estou, nobre Hélio! Sim, o ACF PL-101 tem seu "bolster" totalmente em madeira, acho que deve ter sido essa a razão de ter sido trazido para SJDR, á semelhança dos demais carros da EFOM, se fosse de metal o pessoal da RFFSA nem ligaria pra ele. Como prometido, breve sairá a postagem sobre os carros Administração que existem aqui, como prova de que o Brasil já teve trens de primeiro mundo. Abraço!

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