sábado, 11 de fevereiro de 2012

O triste destino da locomotiva Nº19

   Nas diferentes épocas da E.F Oeste de Minas, a empresa sempre lidou com três diferentes tipos de locomotivas: 4-4-0 (American), 4-6-0 (Ten-Wheeler) e 2-8-0 (Consolidation). Independentes do tipo de rodagem, sempre foram locomotivas "boas de vapor" e "boas de linha", no jargão dos ferroviários mais antigos. Os diretores da EFOM e posteriormente da Rede Mineira de Viação fizeram bom uso dos equipamentos, usando-os para tracionar trens de acordo com a sua capacidade.
  Porém, com a chegada da Viação Férrea do Centro-Oeste, ou VFCO, a situação começou a adernar para o mau lado da companhia. Para começar, houve a erradicação de mais de 500 km da malha original da Oeste de Minas (Linha do Paraopeba e Ramal das Águas Santas, esse último removido contra a vontade do povo são-joanense). Depois, houve a notícia distante da construção de uma usina hidrelétrica na bacia de Itaipu, e haveria grande demanda do transporte de materiais de construção de todas as partes do Brasil. Os dirigentes da VFCO nem precisaram de se oferecer para gerenciar o transporte da carga: a ferrovia já havia sido escalonada para escoar o minério e o cimento que fosse fabricado e extraído nas pedreiras do Campo das Vertentes para as cidades de Antonio Carlos e Aureliano Mourão, onde a carga seria baldeada para trens de bitola de grosso calibre para ser levada até o local da obra, a quase 900 km dali. Nisso, a VFCO começou a fazer uma avaliação de seu material rodante para verificar quais equipamentos estavam adaptados para a árdua tarefa. As máquinas 2-8-0 passaram no teste sem problemas. As 4-6-0 também. Porém, as locomotivas da classe American foram observadas com olhar crítico, pois sua configuração era considerada ineficiente para o transporte intensivo de cargas. Então, o pessoal da companhia começou a tentar se desfazer de suas máquinas 4-4-0, dado que elas não seriam úteis no transporte do minério. Máquinas como a Nº21 e a Nº22 foram mantidas como locomotivas de manobra, servindo nos pátios de São João del-Rei e Antonio Carlos para  movimentar as gondolas, pranchas e boxes que chegavam e partiam. Fora isso, restavam apenas mais algumas 4-4-0: A Nº1, que nesse tempo se encontrava em Belo Horizonte como monumento, a Nº16, já encostada na fila de morte, e a Nº20, que estava em Lavras também como monumento estático. Fora isso, havia apenas mais uma locomotiva que não estava manobrando e nem parada: a pequena e desprotegida Nº19.

Bem-cuidada por seu maquinista, a VFCO Nº22, que posteriormente recebeu o Nº19, era a única 4-4-0 que se encontrava tracionando trens de passageiros fora dos pátios das estações.
  Apesar da locomotiva estar rodando e em perfeito estado de conservação, os dirigentes do Complexo Ferroviário de São João del-Rei da década de 1970 decidiram jogar a faca no quadro da Nº19. Sem o conhecimento de seu "dono", a VFCO fechou um contrato com a Prefeitura de Curitiba para a venda do equipamento para os paranaenses, que desejavam uma locomotiva "clássica" para enfeitar uma das alas do Parque Birigui, situado na capital do estado. A venda foi efeituada. Porém, antes da locomotiva partir, os engenheiros da VFCO tiveram o cuidado de raspar todas as peças que pudessem vir a ser úteis em outras máquinas. Manômetros, a válvula do freio, bateria do farol, o tanque de óleo do tender e até o sino foram retirados para serem aproveitados em outros equipamentos. E semanas depois, veio a carreta para buscar a locomotiva.

   No Parque Birigui, a VFCO 19 foi colocada em exposição em um jardim, dividindo espaço com dois outros carros de passageiros. Porém, a peça perdeu sua bela pintura original. que deu lugar á um estilo bizarro, em tons de vermelho, amarelo, branco, rosa e azul. Permaneceu lá por aproximadamente 20 anos, até que os empreendedores do Shopping Estação decidiram comprar a máquina para servir como principal peça no hall da loja de departamentos.


VFCO 19 em dois diferentes períodos de sua estadia no Paraná: acima, exposta ao tempo no Parque Birigui, pintada em cores berrantes, fora do padrão das locomotivas. Abaixo, a Nº19 atualmente, pintada em tons mais discretos e protegida da corrosão natural.
  A VFCO 19 ainda se encontra em Curitiba. Sua cabine está lisa, completamente isenta de peças de comando, embora a caldeira em si esteja em perfeitas condições. Preservada pelo pessoal do Shopping, felizmente está conservada com boas intenções. Porém, o fato da locomotiva estar situada lá no Paraná tem os seus contras. Esse equipamento não tem absolutamente nada a ver com a história da ferrovia em Curitiba. Não faz sentido a peça da Oeste de Minas fazer parte do museu que conta a história da Rede de Viação Paraná-Santa Catarina, ou RVPSC. Tem mais. A locomotiva está em boas condições, com suas peças básicas intactas. Poderia estar sendo exposta novamente no museu da ferrovia em que ela rodou, ou fazendo parte da frota de trens ativos da EFOM atualmente (vide a locomotiva Nº22, que é uma das preferidas da Ferrovia Centro-Atlântica). A única ameaça que a Nº19 sofre  atualmente, são os raros casos de vandalismo contra a peça, que aparece com pontas de cigarro no tender, chiclete grudado na cabine e papel de bala por toda a parte. Uma locomotiva histórica...

Um comentário:

  1. Desculpe se serei rude, também não sei se o administrador do blog irá ler, pois em sua grande maioria criam os blogs e acabam esquecidos no tempo, porém isso não convém no momento.
    Pois bem, procurando por algumas locomotivas no Google deparei me com seu blog, que por sinal é muito bom e contém muitas histórias boas. Sou de Curitiba e explorei muito bem esta locomotiva N°19 no Parque Barigüi na década de 80 e por vários anos sim, ela ficou no tempo sendo motivo para depredação de vândalos.
    Do outro lado da cidade, está localizado hoje o Shopping Estação que tem sua construção tombada pelo patrimônio público, tanto o prédio como a locomotiva devem estar presentes ali e conservados.
    Até meados de 2002 a imponente locomotiva Baldwin N°11 esteve repousando confortável na estação, porém neste ano houve uma troca de administradores por parte dos donos do shopping e a Baldwin foi transferida para o pátio da ABFP nas proximidades, tendo assim a necessidade da administração procurar por outra e assim realocou a 19.
    Tenho certeza que para a administração qualquer locomotiva presente ali estará de "bom tamanho", pois é praticamente uma obrigação imposta à eles, embora não concorde que este seja seu "triste destino", porque a locomotiva está em boas condições, ao abrigo de intempéries, numa das linhas mais importantes do país -Curitiba/Paranaguá- e ao lado do Museu Ferroviário de Curitiba.
    Meu muito obrigado e certo de que podemos dividir opiniões e conhecimentos ferroviários!

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