quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A locomotiva Nº60 e seu histórico de acidentes

 Em qualquer ferrovia, acidentes acontecem pelas mais variadas causas. Falha mecânica, mau estado da via permanente ou mesmo um descuido do condutor podem resultar em acontecimentos e imprevistos trágicos. E na E. F Oeste de Minas também não era diferente. Um ou outro descarrilamento eram até normais, mas acidentes de grandes proporções também podem acontecer, como o que está registrado na imagem abaixo, em que a locomotiva Nº37 bateu em cheio em uma outra composição que estava na mesma via. Aconteceu no ano de 1935.
Locomotiva Nº37 na estação de Coqueiros, em 1935. Um descuido do maquinista e a locomotiva colidiu com outro trem que vinha de ré, já pronto para deixar a estação. O boxe onde a locomotiva bateu ficou todo arregaçado com o impacto, e teve de ser descartado. Quanto á N°37, teve de ser levada de prancha até as oficinas de Divinópolis, onde foi restaurada. Foto do acervo NEOM-ABPF.


Eu poderia listar muitos outros acidentes que ocorreram em toda a história da EFOM, como o que a locomotiva Nº20 quase caiu da Ponte do Inferno devido a uma tempestade, ou o que a locomotiva Nº65 descarrilou devido a pedras que foram colocadas na linha por malandragem (abomino quem faz isso). Um registro raro, que vale a pena ser compartilhado com os leitores do blog. Veja:

 Clique na imagem para ampliar: Locomotiva Nº65 descarrilada após encontrar obstruções nos trilhos  (provavelmente foram "pedronas" que algumas crianças exageradas puseram só "para ver o que acontecia"). Deu no que deu. Autor e local desconhecidos. Anos 1950. 

  Porém, dentre as máquinas que mais se destacaram por causarem problemas e dor de cabeça para o pessoal da Oeste com certeza foi a consolidation Nº60. Trenzinho problemático, aquele. Os funcionários da VFCO reclamavam dela por causa do histórico "sujo", e procuravam passar longe da mesma. Mas mesmo assim, alguém tinha que pilotar o trem, sentindo uma ponta de receio de que a locomotiva falhasse no meio da viagem ou coisa parecida. Só de acidentes fatais, foram dois: um inclusive com mortes, em que a Nº60 transportava um trem de cimento para Barroso e passou por um pequeno pontilhão que estava com sua estrutura "bichada". O mesmo não aguentou o peso da máquina e um dos trilhos cedeu, fazendo a locomotiva descarrilar e afundar em um brejo colossal. A brutalidade da queda foi tanta que a cabine da Nº60 se soltou do resto da caldeira, matando o maquinista e o foguista no ato. Algumas horas depois, a equipe da estação ferroviária de Barroso estranhou a demora e contatou a estação da S. João del-Rei para se informar se o trem havia sofrido atraso, ou não partira. O time de telegrafistas de SJDR informou que o trem saíra há muito tempo e já era esperado que o mesmo estivesse retornando para transportar mais um round de calcário. Preocupados, os funcionários de Barroso enviaram um auto de linha para tentar interceptar a composição. Ficaram estupefatos ao ver as gondolas de cimento paradas, o tender da Nº60 atravessado na linha e a locomotiva afundando na lama, e nem sinal de seus condutores.


 Caldeira da locomotiva Nº60 afundando na lama do brejo. Cabine onde? Vendo aquela cena, os funcionários da VFCO devem ter pensado: "Challenge aceppted!" 




   Voltando rapidamente a Barroso, a equipe da VFCO de lá mandou um telegrama de volta a São João: "Mande um trem de socorro para cá, nós temos um grande descarrilamento aqui. Preferencialmente com guindaste". Os dirigentes do Complexo Ferroviário se alarmaram, e mandaram não só um trem de socorro completo como um grande time de operários para desencavar a locomotiva, manobrar os vagões que sobraram e resgatar os improváveis sobreviventes. Foi uma operação "espartana", que consumiu um dia inteiro de trabalho e o comprometimento de quase 50 trabalhadores, que conseguiram resgatar o maquinário (sem cabine), levá-lo para as oficinas de S. João del-Rei e restaurá-lo para colocá-lo em ordem de marcha novamente. Trabalhou bastante, se envolveu em novos acidentes e levou cargas para muitos lugares até o fim da atividade comercial da bitolinha.


 Guindaste se movimentando para tirar a caldeira da Nº60 do buraco lamacento. Funcionários da VFCO trabalhando para desencavar o equipamento.




Guindaste quase tirando a caldeira do lamaçal.

"You win! Perfect!" Os engenheiros da VFCO posam para a foto final, juntos á caldeira da locomotiva que demorou um dia inteiro para ser resgatada. Então, ela começaria uma longa viagem de volta para casa, onde seria restaurada para estar na ativa outra vez.

  Depois dessa, a locomotiva Nº60 foi levada para as oficinas, de onde saiu pronta para o dever após alguns meses. Não se envolveu em acidentes por alguns anos, até que um dia, uma falha em seu sistema hidráulico, na estação ferroviária de Bambuí, MG, faz com que a mesma tenha que voltar para São João del-Rei sobre uma prancha. Daí começou sua má fama. Os funcionários da empresa começaram a dizer que a locomotiva tinha "problema" e que a mesma deveria parar de rodar, o que não aconteceu.

 Locomotiva Nº60 após quebrar no pátio ferroviário de Bambuí, na década de 1980.

 Apenas alguns anos antes, ainda na década de 1970, a locomotiva Nº60 se envolve em mais uma ocorrência. Dessa vez, não houve descarrilamento nem falha mecânica. A Nº60 fazia um trem cargueiro e chegou em uma subida de nível; os carros e charretes pararam para deixar o trem passar, mas o motorista de um ônibus pisou fundo no acelerador, provavelmente pensando: "Dá pra passar!" Não deu. O trem foi mais rápido, e o ônibus bateu em cheio na caldeira da locomotiva, correndo o risco de mandar tudo pelos ares com a força da colisão. Felizmente, não houve mortes. 

Ônibus que bateu na locomotiva Nº60. Consequência de pressa e desrespeito á sinalização: mistura perigosa. Fonte: acervo de Hugo Caramuru.

  Depois desse incidente, os funcionários da já RFFSA inventaram hipóteses muito doidas sobre o porque de a Nº60 se acidentar com frequência: alguns disseram que ela estava com falhas em excesso; outros apelavam para o lado sobrenatural e diziam que era por causa dos mortos do acidente em Barroso, e ainda haviam os que acreditavam que alguém jogara uma praga no equipamento; porém todas essas teorias se mostraram infundadas e a locomotiva Nº60 ainda trabalhou durante muito e muito tempo, até a inauguração do complexo de museus da EFOM, onde ainda trabalhou na manobra até meados de 1997, quando foi aposentada definitivamente,e a Nº60 ser destinada a se tornar enfeite da plataforma da estação ferroviária de São João del-Rei, junto com a locomotiva Nº21 e o guindaste que a resgatou de um lamaçal em Barroso, naquele distante 1950.

Locomotiva Nº60 atualmente, servindo de escultura decorativa na plataforma da estação. Foto de Juliano Marchetti.

2 comentários:

  1. SOBRE O ACIDENTE DA 37 EM COQUEIROS ESTA LOCOMOTIVA ERA CONDUZIDA PELO PAI DO SR WILSON ROCHA EX FERROVIARIO (TRABALHOU NO ALMOXERIFADO EM
    SÃO JOÃO DEL-REI)ELE TINHA A FOTO ORIGINAL.ELE ME CONTOU VARIOS EPISODIOS DA SUA VIDA NA FERROVIA.GOSTAVA MUITO DELE.

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    1. Nossa, que interessante, Fábio, gostaria de saber mais sobre o pai do sr. Wilson Rocha e saber se ele tem mais alguma fotografia da E.F.Oeste de Minas ou relatos interessantes para contar. Se possível, é claro.

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