terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A saudosa era dos trens de passageiros: O "Trem Húngaro"

  No Brasil, um dos meios de se transportar cargas mais eficiente, especialmente o transporte de minérios, se consiste no trem. Maior, mais econômico e menos poluidor, o trem pode transportar um volume de cargas  maior em menos tempo, com menos gasto de cash de parte dos que contratam o serviço e tirando quase 350 caminhões das rodovias para cada composição com 220 vagões de carga. Mas... quem vê os comboios cargueiros passando nas linhas se pergunta? E os trens de passageiros?
 Se você assiste o telejornal ou tem acesso á qualquer meio de comunicação, verá que após o Réveillon, Natal e outros feriadões, verá o "placar final" dos acidentes, feridos e mortos nas rodovias do Brasil. É sempre assim. Dado que muitas pessoas preferem ir em seus carrinhos populares rumo ás praias do Rio de Janeiro e de São Paulo para as festas de fim de ano, tem de compartilhar espaço com caminhões e carretas que transportam cargas menores. A convivência de veículos grandes e pequenos em uma mesma via, aliado ao estado de conservação da mesma, fazem com que os imprevistos aconteçam e tragédias assolem o nosso asfalto selvagem.
 Pelo lado do trem... Olhe suas vantagens: uma composição puxada por duas locomotivas G-12, com um carro bagageiro e seis carros de aço-carbono tem capacidade para transportar a mesma quantidade de pessoas que ocupam 120 carros com 4 pessoas cada. O trem pode levar mais gente de uma única vez. Poupa o motorista de problemas como congestionamentos e estresse ao volante. Em um trem como os antigos expressos da RFFSA, podia-se contar com poltronas reclináveis, serviço de bordo, cabines para dormir e outros mimos. Um voo de avião de Belo Horizonte a Santos emite 10 kg de monóxido de carbono; um trem só emite 1 quilo.
 Tem mais. O trem é o meio de transporte mais seguro existente, perdendo apenas para o avião (que apesar da velocidade, consome muito combustível e polui em excesso.). O trem não cai, não bate e os descarrilamentos são inexistentes quando a via férrea está bem cuidada. Além disso, os antigos trens de passageiros eram luxuosos e eficientes ao início.
 Hoje, falarei de um trem que deixou saudades á muitos paulistas e a todos que tiveram a felicidade de andar nele: O "trem húngaro", uma composição luxuosa e importada da Europa para fazer as linhas entre Santos e São Paulo, e Santos e o Rio de Janeiro, foi uma composição especial que circulou nas malhas da SR-4 entre 1974 e 1990.

Propaganda gerenciada pela RFFSA exaltando as vantagens do Trem Húngaro.

 Adquiridos pela RFFSA em 1973, e começando a fazer serviços nas linhas paulistas e cariocas um ano depois, o Ganz-Mavag, como era conhecido pela fabricante soviética, foi aclamado pela imprensa e por entidades do meio ferroviário como um "avião sobre trilhos". Não era para menos. Compostos de quatro carros de passageiros, dois carros motor, um Pulmann e um Buffet. Eram de grande utilidade para pessoas que iriam passar as férias na bela Santos, ou para executivos ou empresários que faziam  a ponte entre Rio-São Paulo, e procuravam uma alternativa barata ao avião. Os luxos oferecidos eram vários, e o conforto era algo de praxe dentro de seus carros.
  Porém, começaram a surgir problemas. Sua tração não podiam vencer alguns trechos da serra. O custo para manter sua ostentação era muito alto. As peças de reposição não chegavam, seja por falta nos estoque das fábricas da Hungria e da União Soviética,ou por atrasos e dívidas com a empresa que importava os equipamentos. Isso fazia com que a RFFSA e a FEPASA, grupos que gerenciavam os trens, ficassem na mão e tivessem que improvisar com materiais usados para consertar locomotivas de trens de bitola métrica e larga. Infelizmente, o trem começou a dar dor de cabeça também para os próprios funcionários da companhia ferroviária, e para o povo que fazia uso do serviço. Os atrasos e a falta de investimento em modernização, fizeram que o Trem Húngaro fosse retirado de serviço na década de 1990. Teve vários destinos. Alguns foram vendidos em leilões de sucata. Outros foram depositados em pátios como o de Paranapiacaba, onde estão ao ar livre sofrendo a ação do tempo. Os que sobraram foram levados para a cidade de Teresina, onde são usados nas linhas de Metro de lá até hoje. Porém, o trem de longa distancia da Baixada Santista virou uma lenda "true" e ficou na memória dos que gozaram de seu serviço.
  Agora fazem falta, já que as linhas em que os Húngaros circularam são usadas para o transporte de cargas, e a preferencia das pessoas para seguir rumo a Santos atualmente é das rodovias, onde se arriscam a sofrer acidentes e suas próprias vidas. Os nossos trens de longa distancia tiveram vida curta. Porém deixaram bastante saudade.

Bela imagem de Thomas Correa, que mostra carros do Trem Húngaro sendo puxados por uma máquina da FEPASA, na via férrea entre Santos e Samaritá. Litoral de Santos, 1988.

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